A dor me deu voz – mas não me define

13/05/2026

Regiane Campos

Existe uma verdade que eu precisei aprender vivendo, e não apenas ouvindo: a dor pode até nos marcar, mas ela não tem o poder de nos definir… a menos que a gente permita.

Durante muito tempo, eu vivi como vítima daquilo que me aconteceu.

Era como se eu estivesse presa em um lugar escuro, silencioso, onde a dor era a única presença constante. Ela me acompanhava nos pensamentos, nas lembranças, nos dias mais difíceis — e, por um tempo, eu achei que aquilo era tudo o que eu era.

A dor se tornou um ambiente.

E eu, uma habitante dele.

Mas algo começou a mudar quando eu decidi me encontrar… ou talvez, quando eu permiti ser encontrada.

Sim, eu tive apoio humano.

Sim, eu tive ajuda psicológica — e isso foi essencial no meu processo.

Mas houve um momento em que nenhuma palavra humana alcançava as partes mais profundas de mim.

Foi nesse lugar que eu encontrei Jesus Cristo.

Não como uma ideia distante, mas como presença real.

Como alguém que me viu no meu pior momento… e ainda assim estendeu as mãos.

E foi ali que tudo começou a mudar.

Eu entendi que não sou aquilo que me feriu.

Eu não sou o que me aconteceu.

Eu sou o que eu permiti que aquela dor produzisse em mim.

A dor me espremeu.

Me levou ao limite.

Mas, em vez de me destruir, ela revelou algo que estava escondido: força, fé, compaixão… e uma voz.

Uma voz que hoje não fala mais a partir da ferida —

mas da cura.

Hoje, eu posso dizer com convicção: eu não carrego a bandeira da dor.

Eu carrego a bandeira da transformação.

Não sou vítima da minha história.

Sou fruto do que sobreviveu.

E se existe algo que a dor me ensinou, é isso:

quando ela não nos mata, ela pode nos moldar —

e, nas mãos certas, ela se transforma em instrumento de cura para outros.

Se hoje a minha voz alcança alguém,

não é porque a dor foi maior que eu…

mas porque eu decidi não ser menor do que ela.

Regiane Campos

1 comentário em “A dor me deu voz – mas não me define”

  1. Olá, Regi, me sinto muito à vontade em continuar te chamando assim. Lendo suas palavras, fui tocada não apenas pela profundidade do que você escreveu, mas também pelas lembranças que elas despertaram em mim. Nossas histórias se cruzaram mais de perto em um tempo em que eu ainda era menina e você já caminhava alguns poucos passos à minha frente. Depois, a vida seguiu seus caminhos, mas a proximidade com a família fez com que, de alguma forma, eu continuasse acompanhando sua história ao longo dos anos.
    Seu texto me tocou de forma profunda, porque, em uma travessia pessoal que também transformou meu corpo, minha identidade e minha maneira de habitar a vida, aprendi algo que dialoga muito com o que encontrei aqui: as experiências mais desafiadoras raramente nos atravessam apenas por fora; elas alcançam lugares silenciosos que muitas vezes nem sabíamos que existiam dentro de nós. Sua coragem de acolher aquilo que emergiu sem fugir, sem mascarar e sem endurecer o coração diante do que foi revelado é algo que me chamou muito a atenção. Existe uma maturidade muito bonita em compreender que algumas experiências não chegam apenas para nos confrontar, mas também para nos revelar.

    Talvez por isso sua reflexão vá muito além de posicionamento. Ela fala sobre identidade, pertencimento e sobre encontrar descanso em um lugar onde não precisamos disputar espaço, provar valor ou viver sustentadas pela comparação. E talvez tenha sido isso que mais me tocou ao te ler hoje: perceber que, mesmo quando a vida nos leva para caminhos diferentes, existem histórias que continuam se encontrando. Foi muito especial reencontrar um pouco de você nessas palavras, um grande abraço !

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